segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Júlio Isidro escreve sobre o direito à felicidade
NÃO, NÃO ESTOU VELHO!!!!!!
NÃO SOU É SUFICIENTEMENTE NOVO PARA JÁ SABER TUDO!
Passaram 40 anos de um sonho chamado Abril.
E lembro-me do texto de Jorge de Sena…. Não quero morrer sem ver a cor da liberdade.
Passaram quatro décadas e de súbito os portugueses ficam a saber, em espanto, que são responsáveis de uma crise e que a têm que pagar…. civilizadamente, ordenadamente, no respeito das regras da democracia, com manifestações próprias das democracias e greves a que têm direito, mas demonstrando sempre o seu elevado espírito cívico, no sofrer e ….calar.
Sou dos que acreditam na invenção desta crise.
Um “directório” algures decidiu que as classes médias estavam a viver acima da média. E de repente verificou-se que todos os países estão a dever dinheiro uns aos outros…. A dívida soberana entrou no nosso vocabulário e invadiu o dia a dia.
Serviu para despedir, cortar salários, regalias/direitos do chamado Estado Social e o valor do trabalho foi diminuído, embora um nosso ministro tenha dito decerto por lapso, que “o trabalho liberta”, frase escrita no portão de entrada de Auschwitz.
Parece que alguém anda à procura de uma solução que se espera não seja final.
Os homens nascem com direito à felicidade e não apenas à estrita e restrita sobrevivência.
Foi perante o espanto dos portugueses que os velhos ficaram com muito menos do seu contrato com o Estado que se comprometia devolver o investimento de uma vida de trabalho. Mas, daqui a 20 anos isto resolve-se.
Agora, os velhos atónitos, repartem o dinheiro entre os medicamentos e a comida.
E ainda tem que dar para ajudar os filhos e netos num exercício de gestão impossível.
A Igreja e tantas instituições de solidariedade fazem diariamente o miagre da multiplicação dos pães.
Morrem mais velhos em solidão, dão por eles pelo cheiro, os passes sociais impedem-nos de sair de casa, suicidam-se mais pessoas, mata-se mais dentro de casa, maridos, mulheres e filhos mancham-se de sangue , 5% dos sem abrigo têm cursos superiores, consta que há cursos superiores de geração espontânea, mas 81.000 licenciados estão desempregados.
Milhares de alunos saem das universidades porque não têm como pagar as propinas, enquanto que muitos desistem de estudar para procurar trabalho.
Há 200.000 novos emigrantes, e o filme “Gaiola Dourada” faz um milhão de espectadores.
Há terras do interior, sem centro de saúde, sem correios e sem finanças, e os festivais de verão estão cheios com bilhetes de centenas de euros.
Há carros topo de gama para sortear e auto-estradas desertas. Na televisão a gente vê gente a fazer sexo explícito e explicitamente a revelar histórias de vida que exaltam a boçalidade.
Há 50.000 trabalhadores rurais que abandonaram os campos, mas há as grandes vitórias da venda de dívida pública a taxas muito mais altas do que outros países intervencionados.
Há romances de ajustes de contas entre políticos e ex-políticos, mas tudo vai acabar em bem...estar para ambas as partes.
Aumentam as mortes por problemas respiratórios consequência de carências alimentares e higiénicas, há enfermeiros a partir entre lágrimas para Inglaterra e Alemanha para ganharem muito mais do que 3 euros à hora, há o romance do senhor Hollande e o enredo do senhor Obama que tudo tem feito para que o SNS americano seja mesmo para todos os americanos. Também ele tem um sonho…
Há a privatização de empresas portuguesas altamente lucrativas e outras que virão a ser lucrativas. Se são e podem vir a ser, porque é que se vendem?
E há a saída à irlandesa quando eu preferia uma…à francesa.
Há muita gente a opinar, alguns escondidos com o rabo de fora.
E aprendemos neologismos como “inconseguimento” e “irrevogável” que quer dizer exactamente o contrário do que está escrito no dicionário.
Mas há os penalties escalpelizados na TV em câmara lenta, muito lenta e muito discutidos, e muita conversa, muita conversa e nós, distraídos.
E agora, já quase todos sabemos que existiu um pintor chamado Miró, nem que seja por via bancária. Surrealista…
Mas há os meninos que têm que ir à escola nas férias para ter pequeno- almoço e almoço.
E as mães que vão ao banco…. alimentar contra a fome , envergonhadamente , matar a fome dos seus meninos.
É por estes meninos com a esperança de dias melhores prometidos para daqui a 20 anos, pelos velhos sem mais 20 anos de esperança de vida e pelos quarentões com a desconfiança de que não mudarão de vida, que eu não quero morrer sem ver a cor de uma nova liberdade.
Júlio Isidro
(na blogosfera; por exemplo, no Ânimo)
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Centro de Artes Contemporâneas da Ribeira Grande
A cultura do elefante
Vai ser inaugurado em breve, no meu concelho, Ribeira Grande, um centro
celestial de artes contemporâneas.
É mais um elefante que já nasceu envolvido nas acostumadas trapalhadas
de obras megalómanas, com derrapagens de estarrecer qualquer paquiderme.
Orçamentado em 12 milhões de euros, já vai em não sei quanto de obras a
mais, acrescido da insolvência do empreiteiro continental e dos
sub-empreiteiros locais que ficaram a ver navios.
É uma imitação da Biblioteca de Angra, porque nisto de invejas e
bairrismos, nada como uma justa repartição das coisas do espírito,
apanhando todos pela mesma bitola obreira de santa Engrácia.
Só de pensar que, se aquilo tiver uma dúzia de salas, cada uma custará
mais de 1 milhão!
Presumo que estarão todas pintadas de ouro, daquele derretido em
lingotes nestas prolixas casas manhosas de compra e venda de penhores.
Somos grandes no consolo.
Mas, ali mesmo em frente, há inúmeras famílias pobres que sobrevivem,
sem direito a remuneração complementar, mais preocupadas com a barriga
do que com o espírito.
No Bairro do Bandejo, quando abrirem as portas de casa, hão-de curvar-se
perante imponente novo-riquismo que lhes enfiam pelo quintal dentro.
Ainda bem que o município de Ponta Delgada desistiu de ideia semelhante
(sem que se livre de, antes, pagar grossa fatura a Óscar Niemeyer),
calhando agora à Ribeira Grande, outrora centro industrial de riqueza
reprodutiva, este enorme emplastro de gastos regionais.
Uma região que importa quase 80% dos produtos hortícolas que consome,
acha mais prioritário investir milhões no regalo da vista do que ter a
enxada na mão.
A mesma região que se mostra incompetente para reabrir o Museu Carlos
Machado e incapaz de promover a literatura açoriana e os seus
escritores, vai despender, ainda, mais uns bons milhares para rechear
aquelas amplas salas de mobiliário rococó e mais outro tanto para manter
em permanente atividade os motores do frenesim artístico do burgo.
Já que falamos de surrealismo, sugiro que avancemos então para a compra
da badalada coleção Miró para o espólio do centro de artes contemporâneas.
Os polícias da cultura ficariam mais sossegados e acabava-se com esta
triste novela dos quadros fustigados pelo provinciano vaivém
londrino-alfacinha.
Sim, porque atendendo ao seu custo, o elefante há-de ser alimentado com
a mais elevada finura da 'vernissage' internacional.
Desiludem-se os caros conterrâneos ribeiragrandenses, que já se
imaginavam em romaria intelectual, sobretudo a partir da populosa
vizinha Rabo de Peixe, em direção ao centro de artes para bisbilhotar o
paquiderme, olhando para as doutas exposições como quem olha para um boi.
Aquilo é para nível mais elevado, o que pomposamente costumam chamar de
“turismo cultural”.
Já estou a imaginar as dezenas de autocarros a saírem do terminal de
cruzeiros, nas Portas do Mar, carregados de turistas excitados para
chegarem à Ribeira Grande e contemplarem o admirável mundo novo.
O mais certo é que, lá chegados, ficarão deslumbrados com as artes
fuseiras do pão caseiro, chá da Gorreana e licor de maracujá...
Pelos corredores oníricos do palacete de arte, já sem réstias de odores
da antiga fábrica do álcool, hão-de deambular catrafadas de “boys” e
“girls”, eles próprios lá colocados como símbolos vivos desta nova arte
moderna - que é a política contemporânea – , a política de ir ao nosso
bolso e enganar toda a gente.
Resumindo: a Ribeira Grande, que não foi tida nem achada para o caso,
vai ter que levar nas ventas com mais betão armado e com um filho que
não pediu.
É uma espécie de co-adoção, sem consulta prévia.
Olha, que rica ideia para os políticos: porque não se faz um referendo?
Pico da Pedra, Fevereiro de 2014
Osvaldo Cabral
(Correio dos Açores; Diário Insular; Multimedia RTP-A; Portuguese Times
(EUA); Lusopress Montreal)
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sábado, 8 de fevereiro de 2014
O português de um árbitro de futebol
"O jogador da equipa visitada, Micolli, desmandou-se em velocidade tentando desobstruir-se no intuito de desfeitear o guarda-redes visitante. Um adversário à ilharga procurou desisolá-lo, desacelerando-o com auxílio à utilização indevida dos membros superiores, o que conseguiu. O jogador Micolli procurou destravar-se com recurso a movimentos tendentes à prosecução de uma situação de desaperto mas o adversário não o desagarrava. Quando finalmente atingiu o desimpedimento desenlargando-se, destemperou-se e tentou tirar desforço, amandando-lhe o membro superior direito à zona do externo, felizmente desacertando-lhe. Derivado a esta atitude, demonstrei-lhe a cartolina correspectiva."
Extracto do relatório do árbitro Carlos Xistra relativo à apresentação do cartão amarelo ao jogador Micolli do Benfica.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Carta dolorosa de um jornalista desempregado
Meus amigos
Peço desculpa por não ter respondido a ninguém. Não o fiz por mal.
Nunca me passaria pela cabeça ter que dizer algo de tão pessoal através do Facebook.
Foi um impulso, ou um grito, de alguém que se mostra dilacerado com um conjunto de situações que atingem centenas de milhar de portugueses nesta altura.
Não tive qualquer objectivo e lamento ter tido este impulso, emocional.
No espaço público.
Estive estas horas remetido ao silencio, ajudado por medicação que me foi prescrita para atenuar situações mais difíceis.
E não queria causar toda esta ansiedade aos meus amigos, familiares,conhecidos.
Não tive condições para atender telefonemas, responder a mais e inúmeras mensagens pessoais no Facebook.
Foi um grito, nada mais que isso.
Ninguém pode fazer mais nada que não seja a expressão desta corrente de solidariedade que tenho tido.
Que contrasta com a indiferença e incompreensão que surge, muitas vezes, de onde menos se espera.
Mas faz parte da vida.
Mas superada em boa parte esta alteração no plano emocional, explico-vos com a clareza possível, como aqui cheguei.
Antes de mais queria ressalvar que nunca em momento algum da minha vida, senti necessidade de me dirigir a amigos e conhecidos, com este propósito. Só costumo manifestar o pulsar do meu interior a alguns, poucos, que me conhecem e privam comigo há varios anos. Não faz parte do meu “ADN” expor-me desta maneira, mas julgo que os meus destinatários compreenderão as razões que passarei a explicar. E desde já as minhas desculpas aos que perderão alguns minutos do seu precioso tempo…
No plano pessoal, sou o primeiro a fazer um exercício de critica, auto-critica, muita auto-analise.
Não estou numa postura de autopiedade, nem procuro qualquer autovitimização. Tenho tentado ser o mais racional possível para enfrentar a situação mais difícil de toda a minha vida. E com a coragem necessária, se me permitem salientar este aspecto…
A humildade é necessária. Há que descer ao terreno e enfrentar a dura realidade.
Depois de muito batalhar no plano mais formal e institucional na procura de um posto de trabalho, tive a conselho de muitos, que fazer abordagens mais directas e mais pessoais, ate. Com o meu CV e outros elementos que julguei pudessem ser objecto de analise de possíveis contratantes. Tenho procurado, dicas, comentários ou informações que me ajudem a enfrentar este momento decisivo, incerto, mas também cruel por que estou a atravessar.
Há semanas, em carta dirigida a algumas pessoas, declarei em jeito de pedido: "Basicamente, para ser directo tanto quanto possível, gostava de saber se têm conhecimento de possíveis empresas ou instituições/organismos onde eu possa desenvolver uma actividade profissional. Qualquer que ela seja, excepto na área técnica; não tenho aptidões para fazer trabalhos de construção civil, carpintaria, energia, etc., porque estive durante 25 anos ligado ao jornalismo. Inicialmente, com 19 anos, fui vendedor de publicidade num jornal da cidade".
Foi o jornalismo que abracei em 1987,como estagiário. Jornais, rádios locais da regiãode Setubal e no Algarve enriqueceram-me muito como profissional e como pessoa.
Procurei apostar na minha qualificação, no início dos anos 90, quando cumpri o serviço militar de quase 16 meses. Tirei um curso no CENJOR ; fiz muita pesquisa, li bastante, sempre com o objectivo de aprender mais.
Em 1993, já era correspondente local do “Publico”, consegui entrar para os quadros da então RDP (hoje Radio e Televisão de Portugal). Por mérito próprio, por selecção e a empresa estava a reformar os seus quadros.
Foi um enorme salto nessa progressão de carreira, e na aprendizagem de novos instrumentos de trabalho.
Estive quase 19 anos naquela empresa, que me tratou bem, que apostou no meu trabalho, como no de muitas outras centenas de profissionais.
Agradeço muito a pessoas como o Ricardo Alexandre, o Sena Santos, o Adelino Gomes, e muitas outras pessoas fora da estrutura de Direcção que me incentivaram e reconheceram o meu trabalho.
Deram-me a oportunidade de conhecer o mundo, de me especializar numa determinada área do jornalismo.
Continuo a trazer comigo esse capital de colaboração reciproca.
Sempre numa postura de humildade que procurei para mim mesmo e também demonstrar aos outros.
Um súbito e muito pronunciado agravamento do meu estado de saúde, em finais de 2011, alterou por completo a minha trajectoria, a normal, de qualquer pessoa: vontade de viver a vida como ela é, aproveitar o bom que a vida nos dá, trabalhar, ser responsável por tudo o que me diz respeito.
Escondi-me. Achava que tinha que me preservar e não revelar problemas do foro emocional.
Vivi durante 13 anos com a minha filha, depois de um divórcio muito atribulado.
Foi com e para ela, que reconstruí a minha vida, aos 33 anos.
Reconstrui tudo. Era um profissional bem pago na RDP, tudo que no plano material consegui foi á custa do meu trabalho, de muito esforço, de muitas horas de trabalho.
O que me deu enorme satisfação foi ter tido o retorno dessa dedicação a um Serviço Publico.
Mas eis que no final desse 2011, muito flagelado pela situação que acima referi e completamente incapaz de inverter sozinho essa trajectoria, acabei por rescindir com a empresa, que estava e está a promover programas de rescisão.
Sem medir as reais consequências, acabei por sair, numa muito ilusória e irresponsável “crença” de que o meu cv e capital de experiencia acumulado me abririam rapidamente portas noutros sítios.
As condições revelaram-se outras. Muito mais complicadas. Com a actual crise, muitos jornalistas estão desempregados. Fala-se em centenas.
Nesse inicio de 2012, a situação agravou-se de dia para dia e vi-me confrontado com portas fechadas. Completamente trancadas.
Apercebi-me de que tinha cometido uma enorme asneira.
A desorientação tomou conta de mim, ainda que tivesse procurado como tenho feito até aqui, varias possibilidades de me reenquadrar profissionalmente.
Um quadro que contribuíu para o agravamento do meu problema de saúde.
Fui “in extremis” acompanhado, num quadro de emergência, por pessoal clinico muito competente. Em Abril-Junho de 2012.
Saí dessa fase mais revigorado, disposto a enfrentar a situação que permanece como pano de fundo.
Foi como sair debaixo de uma parte de telhado que não me esmagou mas que era o que restava da passagem de um grande tsunami.
Foi preciso levantar as telhas que me aprisionavam. Sim, foi uma libertação! Total!
Com ajuda de pessoas que muito me estimam e que compreenderam muito bem todo o meu quadro pessoal.
Têm sido muitos os passos dados, têm sido cautelosos, mas ao mesmo tempo temperados por uma nova maneira, mais pragmática de encarar os problemas.
Mas a escassos meses de ficar sem qualquer apoio do Estado, por se esgotar o tempo, em Abril, por se esgotar aquilo que me é subsidiado depois de mais de duas décadas de descontos, estou assustado, não vislumbro uma alteração da situação, muito complicada, como todos devem imaginar, em que se encontra um desempregado, ainda para mais com 46 anos de idade.
É cruel um País que deixou de ter capacidade para gerar politicas que promovam a agregação dos seus trabalhadores mais qualificados, quando por qualquer razão, deixam de ter o posto de trabalho que ocupavam.
Estou há demasiado tempo. Sou uma das centanas de milhar de pessoas que não vislumbram qualquer melhoria na sua condição.
É cruel, é injusto e não há nada a fazer que não seja reivindicar os nossos direitos e denunciar politicas que estão a matar as pessoas!
Ainda assim, no ano passado, estive ocupado com actividades civicas.
Mas não perdi, em termos de competências profissionais, a minha vontade de inverter o desastre em que caí. Porque é de uma questão de sobrevivência e de dignidade que se trata.
Daí ter procurado junto de todos esta ajuda, algumas ideias, dicas, que possam reforçar estas inúmeras tentativas que tenho estado a fazer…
No ano passado regressei ao CENJOR e tirei um curso para formador profissional.
Ao mesmo tempo, estive meses quase completamente concentrado em ajudar a minha mae que tinha perdido o marido. Tem 83 anos, uma saude muito debil e tive que pratocamente soiznho ajuda-la a recuperar do trauma. Quis ir para um Lar da Misericordia, onde tem protecçao, carinho, companhia, está com pessoas que conhece ha muitos anos.
Foi uma obrigaçao moral de um filho que vive mais perto. Nao me foi facil gerir estes problemas todos e ao mesmo tempo apostar na procura diaria e incessante de um posto de trabalho.
Desde o inicio deste ano, fui confrontado com uma situação que se iria colocar a qualquer momento.
Sabia que dentro de pouco meses, deixaria de poder continuar a pagar a minha casa. Honrei sempre os meus compromissos.
Mas, fui confrontado com a possibilidade de alugar o imóvel, caso contrario, teria que haver lugar a dação em pagamento.
Num prazo muito curto dado pela instituição, um mês e meio.
Desencadeei, sozinho, a espinhosa tarefa de me desvincular da minha casa. Retirar tudo. Um processo doloroso, que mexe com as emoções, que nos remete constantemente para a situação em que nos encontramos.
Não procurei ajuda de ninguém, tive ofertas de ajuda em todo esse processo.
Mas concluí agora essa mudança e eis-me novamente numa encruzilhada e mais frágil. Têm sido dois anos de muito empenho e sacrifício para me sentir motivado e sentir-me o melhor possível e manter uma boa relação com as pessoas que estimo, admiro e são importantes.
Já tinha há alguns meses vendido o meu carro, para poder superar outros encargos e honrar todos os compromissos.
Foi apenas uma aspirina, tudo porque no mercado automóvel, existem aqueles que se aproveitam da crise para não aceitar propostas razoáveis de compra.
So espero continuar…
Provavelmente esta minha iniciativa não sera bem vista publicamente, provavelmente terá os seus custos em termos de imagem…
Mas já não me importa muito expor o que realmente se passa.
Não me esconderei mais.
Tento ainda assim respeitar-me e respeitar os outros.
E também estou solidário com todos os que nalgum momento das suas vidas possam precisar de apoio moral e no que for preciso.
Peço desde já desculpa por vos estar a maçar com isto.
Um grande abraço a tod@s!
Luís Nascimento
Fevereiro 2014.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
O que fui já o não sou
Encontro-me envolto num manto de poeira, que mal me deixa ver o que eu fui outrora, há muitos, muitos anos.
Tenho a vaga impressão de que fui alguém, mas o que fui já o não sou, há muito.
A Vida bloqueou-me, inibiu-me; e hoje sou apenas uma pálida imagem do que fui, em tempos idos. Jorge Heitor
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Governo português subsidia casinos
GOVERNO PORTUGUÊS SUBSIDIA CASINOS
As contas da "Estoril Sol" (Casinos do Estoril, de Lisboa-Expo e da Póvoa de Varzim) respeitantes a 30/Set/2013 foram publicadas no sítio web da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).
Como pouca gente vê esse sítio e como os media "de referência" não as divulgaram, tais contas são praticamente desconhecidas do público.
Verifica-se ali que:
1) A empresa fechou o 3º trimestre com lucros de 1.258.281 €;
2) As receitas diminuíram 5% em relação às da mesma data de 2012.
E, numa análise mais fina, constata-se que caíram 7% as receitas das slot machines mas subiram 2% aquelas do jogo bancado (bacará, gamão, etc).
No total de 137.771.294€ de receitas contabilizadas, 42% respeitam ao Casino de Lisboa-Expo, 37% ao do Estoril e 21% ao da Póvoa.
Por sua vez, os benefícios fiscais recebidos ascenderam a 2.736.516 €, ou seja, 2% do total das receitas e mais do dobro do lucro registado!
Os referidos benefícios foram atribuídos como apoio do Estado à "renovação de equipamentos" (2.331.516€) e à "animação realizada" (405.000€).
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
RCA e Sudão do Sul : Duas crises vizinhas
No interior da África Negra, por volta da latitude 5 graus acima do Equador, os povos do antigo Ubangui-Chari (hoje República Centro-Africana) e da parte meridional de um Sudão que chegou a ser condomínio anglo-egípcio estão hoje a viver um sofrimento indescritível, merecedor de toda a nossa compaixão. Tentemos compreender o que se passa.
Jorge Heitor
Depois de a maior parte dos actuais estados africanos ter obtido a sua independência, muitos deles há 50 ou há 54 anos, as fronteiras artificiais de uns quantos foram consideradas a mais potente fonte de conflito e de instabilidade, pois que não correspondiam de forma alguma ao que uma grande parte da África verdadeiramente era ainda em meados do século XIX. E surgiram acalorados debates sobre se se deveria ou não rever as fronteiras traçadas pelas potências coloniais, na Conferência de Berlim e algum tempo depois.
A Organização da Unidade Africana (OUA), que entretanto deu origem à União Africana (UA), foi da opinião de que tudo se deveria manter como estava, para evitar males maiores. Mas a verdade é que acontecimentos como os destes últimos meses na República Centro-Africana (RCA) e no Sudão do Sul vieram uma vez mais demonstrar o artificialismo de tantos estados da África, onde sete, dez ou vinte povos coabitam muito mal, cada um deles com a sua língua e com uma cultura próprias.
Pretende-se que as repúblicas africanas tenham uma estrutura e uma vida política equiparáveis às do Reino Unido, da França ou da Alemanha. Só que, isso não está de acordo com a verdade mais profunda de muitas etnias da África, que ainda desconhecem o que seja um Estado, nos moldes em que o entendemos em Lisboa, Paris ou Berlim. E desse equívoco derivam os conflitos e a incapacidade de a RCA, o Sudão do Sul ou a República Democrática do Congo (RDC), por exemplo, viverem tão cedo dentro do estilo de unidade que há muito se forjou em Portugal, na França ou na Alemanha. Realidades completamente diferentes não se podem reger por modelos idênticos.
Conflitos estão para durar
O perigo de conflitos desestabilizadores vai-se continuar a sentir, ainda durante mais algumas décadas, na RCA, no Sudão do Sul, na RDC ou na Guiné-Bissau. Ninguém pense que os problemas básicos destes países se consigam resolver de forma satisfatória nos próximos seis ou sete anos. Não há, de modo algum, condições para tal; por mais conferências ou discursos que se façam.
É a esta luz, em grande parte, que deveremos ler e interpretar as notícias assustadoras que em Dezembro de 2013 e em Janeiro de 2014 nos chegaram de Bangui e de Juba, com muitos mortos, feridos e desalojados; num infindável cortejo de horrores. A coabitação forçada de grupos étnicos que há 70 ou 90 anos nada tinham a ver uns com os outros só poderia gerar faísca, ingovernabilidade.
Nas capitais dos estados africanos até se poderá viver de uma forma não muito diferente da de Lisboa, Madrid, Paris; mas quando se sai 300 ou 400 quilómetros dos grandes centros populacionais logo se encontra uma África muito diferente, com costumes bem arreigados, dentro dos quais é muito difícil vingar o projecto de eleições presidenciais e legislativas que decorram como nos países mais desenvolvidos; ou até mesmo a existência de um hino nacional sentido de igual modo por 15 ou 20 etnias diferentes.
A grande mistificação
Criados dentro de fronteiras que a França, o Reino Unido, Portugal e alguns outros países europeus delinearam, os estados africanos começaram por ser dirigidos por políticos formados em universidades ou outras instituições europeias ou norte-americanas, longe da realidade dos seus antepassados; e que portanto tentaram seguir modelos que nada diziam aos seus pais e avós, surgindo daí a grande mistificação da África contemporânea.
Só depois de todo este preâmbulo é que nos podemos debruçar sobre a triste situação humanitária da RCA, com um bom milhão de desalojados, num território a que há 60 anos se chamava Ubangui-Chari e tinha como principal político Barthélémy Boganda, que em Março de 1959 morreu num desastre de aviação, tendo-lhe sucedido como principal figura local seu primo David Dacko.
O golpe de Março do ano passado, que depôs o Presidente François Bozizé, foi apenas mais um, num espaço que só há menos de seis décadas se chama RCA e que, portanto, não se encontra de forma alguma consolidado, como entidade nacional. É um mero projecto, como tantos outros existentes num continente do qual se poderá dizer que ainda há meio século tinha comunidades a viver como que no neolítico.
Os ataques a civis, os saques e a intervenção do Exército francês marcaram estes últimos meses na RCA, que (recorde-se) até já foi um "Império", por decisão do louco coronel Jean-Bedel Bokassa, primo de David Dacko. A coroação, ao estilo de Napeolão Bonaparte, verificou-se em 4 de Dezembro de 1977.
Instabilidade crónica
Na senda de uma instabilidade crónica, grupos de rebeldes, essencialmente muçulmanos e congregados numa rede designada Seleka, afastaram o ano passado o Presidente Bozizé (de formação evangélica) e provocaram o caos, até que os militares franceses intervieram, ao lado de 4.000 soldados de diferentes países africanos.
Nestes últimos 10 meses, 75.000 cidadãos da RCA fugiram para o estrangeiro, nomeadamente para os dois Congos, o Chade e os Camarões, demonstrando assim, uma vez mais, o quanto os acontecimentos de um país se podem repercutir em outros, originando verdadeiras crises regionais.
Há semanas, o dirigente interino da República Centro-Africana, Michel Djotodia, completamente incapaz de acabar com a violência entre milícias cristãs e muçulmanas, foi obrigado a partir para o exílio, no Benin, de modo a dar lugar a alguém com mais capacidade para impedir o genocídio sectário.
Nessa altura, na segunda semana de Janeiro, já havia 2,2 milhões de cidadãos centro-africanos a necessitar de ajuda humanitária.
O falhanço de Juba
Quanto ao Sudão do Sul, o Congresso norte-americano, que se regozijara com o seu nascimento, manifestou agora a opinião de que a actual crise não era inevitável nem imparável. Tratar-se-ia, isso sim, de uma crise política e de um claro falhanço da liderança do jovem país, que algum tempo antes de nascer perdera o seu principal mentor, John Garang. Como em tantos outros casos, estaria a verificar-se que determinados grupos sabem alcançar a independência mas depois não sabem muito bem o que fazer com ela; não a sabem defender e consolidar.
A vida independente do território começou apenas há três anos, em 2011, com grandes promessas, associadas a uma certa abundância de recursos naturais (a começar pelo petróleo) e ao forte apoio internacional, designadamente de Washington e das igrejas cristãs. Mas permaneceu o perigo de assuntos ainda por resolver com Cartum, muitos deles relacionados com a exploração petrolífera e com o desenhar das fronteiras, como na caso da região de Abiyei. Permaneceram as feridas profundas dos 22 anos da mais recente guerra entre o Sudão setentrional e o meridional, só para falar destas últimas décadas, uma vez que já outros combates se tinham travado em épocas anteriores.
Falta de prática
O Sudão do Sul não estava muito habituado a ser autónomo (uma autonomia não é coisa que se possa solidificar em meia dúzia de anos) e era constituído por uma série de comunidades, umas cristãs e outras animistas; comunidades que só tinham em comum o desejo de se libertar da opressão nortista, que lhes queria impor a sharia, a lei muçulmana. Não havia uma boa rede de estradas nem de telecomunicações. Não havia um bom ponto de partida para colocar em funcionamento normal um Estado moderno, pelo que alguns analistas começam agora a perguntar se não teria havido uma certa precipitação na proclamação da independência. Possivelmente, funcionou mais o coração do que a cabeça.
Traduzindo tudo isto em termos mais concretos, a actual crise é o resultado directo da incapacidade do Presidente Salva Kiir (sucessor de Garang) e do antigo vice-presidente Riek Machar para evitar o recurso à violência como forma de resolver as suas divergências políticas. E só não é pior porque, felizmente, não alastrou à totalidade do país. Algumas zonas permanecem pacíficas, com dirigentes da sociedade civil e de instituições religiosas a esforçarem-se para que se alcance um apaziguamento, um arrefecer dos ânimos.
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(texto especialmente preparado para a revista Além-Mar)
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