sábado, 27 de outubro de 2012

Portugal precisa de um Governo bem diferente

O antigo Presidente Mário Soares quer novo Governo, mas sem eleições, pois que decerto não acreditará que os seus queridos socialistas venham a ser capazes de contabilizar muito mais de 34 por cento do voto dos portugueses. Só um povo muito pouco esclarecido é que iria agora dar 36 por cento ou mais dos seus votos ao partido de Mário Soares, de José Sócrates e de Francisco Assis. O PSD já demonstrou não estar à altura das esperanças que alguns teriam depositado nele no ano passado, mas o regresso ao PS também não me parece uma boa solução, pois que temos de ter presentes muitas coisas ocorridas há três ou há quatro anos. Nem um nem outro desses partidos merecem nas presentes circunstâncias receber o voto de 33, 35 ou 36 por cento dos portugueses, sendo pois necessário procurar outras forças políticas, que ainda não tenham sido para nós uma tão grande desilução, nesta última dúzia de anos. Ou então que se forme um Governo sobretudo de tecnocratas, uma grande coligação de competências, deixando à margem as direcções partidárias. Seja como for, não podemos continuar por mais tempo nos caminhos que temos vindo a trilhar desde o fim do século passado, pois que eles nos levaram ao desastre. Jorge Heitor

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Mais seis cardeais

Le 24 octobre 2012, le pape Benoît XVI a annoncé la tenue du consistoire du 24 novembre, au cours duquel seront créés 6 nouveaux cardinaux, tous électeurs1. Mgr James Michael Harvey (1949-), préfet de la Maison pontificale SB Bechara Boutros Rahi (1940-), patriarche d'Antioche des maronites Mgr Baselios Cleemis Thottunkal (1959- ), archevêque majeur de Trivandrum des Syro-Malankares Mgr John Olorunfermi Onaiyekan (1944- ), archevêque d'Abuja Mgr Rubén Salazar Gómez (1942- ), archevêque de Bogota Mgr Luis Antonio Tagle (1957-), archevêque de Manille

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A triste pátria que é Portugal

O Governo de Pedro Passos Coelho apresentou um Orçamento de Estado que castiga quase todos os portugueses com muito mais austeridade do que aquela que já sofriam desde há alguns anos. O clima é de enorme tensão. Jorge Heitor Neste recanto do extremo ocidental da Europa, as pessoas estão a viver hoje em dia muito pior do que há 13 ou 14 anos, sendo poucas as que conseguem manter o nível de vida que tinham durante a década de 1980. Apesar do ambiente animado de cidades como Lisboa e o Funchal, em grande parte devido ao afluxo de turistas, vindos de muitos países, os portugueses que viveram com euforia o 25 de Abril de 1974 e que se julgaram felizes quando lhes disseram que iam entrar num mundo melhor, mais desenvolvido, mostram-se agora bastante cépticos. A adopção da moeda única europeia, o euro, coincidiu com um agravamento geral das condições de vida da população, ao ponto de 16,5 por cento dos cidadãos com idade activa não conseguirem arranjar emprego. Muito em especial os mais jovens, os que vão saindo de escolas superiores com cursos que algumas vezes de pouco servem. Este Portugal que há 40 anos se julgava uma Pátria pluricontinental, pois que ainda estava a administrar a Guiné-Bissau, Angola, Moçambique e Timor-Leste, é agora um país caído no desânimo, muito mais pequeno do que algumas das suas antigas colónias e sem saber muito bem qual é que será o dia de amanhã. Há impostos que chegam a 37 e mais por cento do que aquilo que em teoria se ganha e há subsídios de férias que deixam de ser pagos, pelo que numerosas famílias se encontram endividadas e muita gente está a emigrar. A França, a Suíça, o Luxemburgo, o Reino Unido e a Alemanha são alguns dos destinos procurados pelos portugueses em busca de emprego. Desaires sucessivos Depois de há dois anos se ter concluído que o Governo socialista de José Sócrates não estava a agir bem, surgiu uma coligação PSD-CDS, liderada por Pedro Passos Coelho, que prometeu remediar o mal feito mas só conseguiu, na prática, agravar ainda mais as penas por que passam os cidadãos de Portugal. Manifestações enormes, de 180.000 e 200.000 pessoas cada, têm percorrido as ruas de Lisboa, do Porto e de outras cidades, com gritos de revolta, por parte de um povo que não aguenta mais ter sido ludibriado nas suas esperanças de que algum dia poderia vir a ter um nível de vida equiparável ao dos franceses, alemães, britânicos ou holandeses. Portugal está na cauda da Europa; é uma das ovelhas negras deste continente. E por isso anseia dramaticamente por um milagre, como seria o de o Presidente da República conseguir convencer socialistas, sociais-democratas e outros grupos a juntarem-se num autêntico Governo de Salvação Nacional. Ufanava-se a Europa Ocidental de ser um modelo de democracia, com 10, 12 e mais listas a concorrerem a qualquer acto eleitoral; mas agora já começa a ver que não é a mera existência de eleições disputadas por uma dúzia de partidos que ajuda a resolver os problemas de um país. Eventualmente, os portugueses poderão muito bem chegar à conclusão de que bastam sete ou oito formações políticas, se nelas existirem homens sérios, verdadeiramente empenhados em trabalhar para o bem comum. É bem triste esta minha carta de Lisboa, hoje, pois tristes são os dias que se estão a passar; e o desalento impera. Daí o desabafo.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Há sete anos que combato por uma vida melhor

Em primeiro lugar, qualquer Governo português que se preze deve fazer com que não haja (sequer) 400.000 ou 510.000 cidadãos no desemprego. Em segundo lugar, o Estado não deverá permitir que haja trabalhadores a ganhar menos de 450 euros, pois que isso não dá absolutamente para nada. Em terceiro, não poderemos ter idosos com pensões de uns meros 330 ou 360 euros, pois que ninguém consegue sobreviver com esse dinheiro. Este país só merece a pena se nenhum dos seus cidadãos passar fome ou tiver de viver num vão de escada, sujeito aos rigores do Inverno. Enquanto estas coisas básicas não forem feitas, Portugal não pode ser considerado uma Pátria digna, um território decente para perto de 11 milhões de europeus. Presidência da República, Assembleia e Governo têm de se empenhar nestes objectivos básicos, sob pena do descrédito total das instituições. Enquanto o não fizerem, não nos venham falar em novos aeroportos internacionais ou em caminhos-de-ferro de alta velocidade, pois que isso será obsceno. Lisboa, 15 de Janeiro de 2006 Jorge Heitor --- Como vêem, quase todos estes considerandos se mantêm actuais. Só se teve o bom senso de suspender a construção de novos aeroportos e de linhas de alta velocidade. Mas continua-se com um desemprego astronómico e com um salário mínimo que ainda nem sequer chega aos 500 euros; o que é rigorosamente nada. Por estas linhas se percebe que ando há perto de sete anos a clamar por coisas que urgem ser feitas e que ninguém ainda foi capaz de fazer.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Índice de Liberdade de Imprensa

Primeiros lugares no índice 2011-2012 de Liberdade de Imprensa, elaborado pelos Repórteres sem Fronteiras: Finlândia, Noruega, Estónia, Holanda, Áustria, Islândia, Luxemburgo, Suíça, Cabo Verde, Canadá, Dinamarca, Suécia e Nova Zelândia. O Japão aparece no vigésimo segundo lugar, o Reino Unido no vigésimo oitavo, a Austrália no trigésimo e Portugal no trigésimo terceiro.

domingo, 23 de setembro de 2012

Uma crise com muito mais de oito anos

"A situação financeira das famílias portuguesas encontra-se ao seu mais baixo nível dos últimos quatro anos. O Presidente da República colocou o dedo na ferida. É necessário remodelar profundamente o Governo. Ou dissolver a Assembleia da República e convocar eleições gerais antecipadas. Isto assim não pode ser. Isto assim não pode continuar. O nível de revolta aumenta dia a dia. Sufoca-se neste país. "A saúde é um desastre. Morre-se nas urgências dos hospitais. Espera-se mais de sete semanas para se marcar certos exames médicos. Estamos fartos!". Jorge Heitor 5 de Janeiro de 2008 -- Isto escrevia eu no blog Comunidades no início do ano de 2008; e o problema não perdeu actualidade. A situação financeira das famílias portuguesas encontra-se agora ao seu mais baixo nível dos últimos oito anos e meio. As eleições dos últimos anos de nada serviram. Isto assim continua a não poder ser; o nível de revolta é generalizado. Só que uns o expressam de forma mais violenta, nas ruas, e outros o fazem sobretudo nos escritos, como esta nota que aqui deixo. O que me importa sobretudo sublinha é que o problema não é de modo algum de há 12 ou 15 meses. Antes se arrasta há muito mais de oito anos, com a generalidade da população portuguesa a viver hoje bem pior do que vivia em 2003. É muito, muito urgente, que não se tomem apenas algumas medidas pontuais, pois que o que o que interessa verdadeiramente fazer é uma reestruturação das mentalidades e dos modos de estar. JH

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Exmo. Senhor Primeiro Ministro . Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe. . Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito – todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! – mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal. . Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice – da minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco – ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia. . A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta – as físicas, as emotivas e as morais – um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado “The Garden Party”: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos. . Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. . Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter,para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso. . Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos , situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14.º andar, explicava, a desolação que se contempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa. e do seu robótico Ministro das Finanças - sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... – têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página. Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida – tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher – como o “conservador” Passos Coelho – quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá. . Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. – e com isto termino – uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: ”Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo. De V. Exa., atentamente, Eugénio Lisboa nascido em Moçambique no ano de 1930