terça-feira, 5 de maio de 2015
Cante Alentejano na Ovibeja
A Ovibeja, grande realização agropecuária e industrial que todos os anos se realiza na cidade portuguesa de Beja, foi desta vez, nos últimos dias de Abril e primeiros dias de Maio, dedicada ao Cante Alentejano, uma forma de música coral recentemente reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Um dos pavilhões da enorme feira, que atraiu muitos milhares de visitantes, foi especialmente dedicado à apresentação daquele género musical, que a par do Fado é um dos que mais se destacam em Portugal e marcam a identidade cultural do país.
Fora de Beja, também Cuba, Serpa, Moura e outras localidades da região ostentaram nas fachadas dos seus edifícios públicos faixas de homenagem a uma expressão artística que tão bem traduz a alma do Alentejo, território vasto dominado pelas plantações de sobreiros, de onde se extrai a cortiça.
Em cada Cante, em cada palavra cantada, o povo alentejano lembra o muito que tem sofrido ao longo dos tempos, mormente no tempo em que as suas terras se encontravam sobretudo na posse de grandes latifundiários, auferindo os trabalhadores, ou ganhões, salários que se poderiam considerar de miséria.
Era assim há 45 ou 50 anos, antes do 25 de Abril de 1974 e da Reforma Agrária, que muito vieram modificar a forma de vida em todo o Alto e Baixo Alentejo, que se situam sensivelmente num espaço que vai de 70 a 250 quilómetros a partir de Lisboa, para Sul e Sueste.
Hoje em dia, para além do tradicional sobreiro, o Alentejo também é muito conhecido pelas suas vinhas, das quais se extrai um vinho delicioso, cada vez com mais clientes. E não deixa de ter praias bem conhecidas, como Porto Covo, Vila Nova de Milfontes ou Zambujeira do Mar.
O Cante é pois um grande hino a uma terra em evolução, terra onde os naturais deixaram de ser explorados como tantas vezes acontecia, tanto nos campos como nas minas.
Hoje em dia há mais justiça, as pessoas sentem-se melhor, em municípios como Évora, Beja, Cuba, Serpa, Moura, Alvito ou Vidigueira. E por isso sabe sempre bem visitar ou passar alguns dias no Alentejo, uma vastidão tranquila, de grande sossego. JH 5 de Maio de 2015
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Basta de xenofobia sul-africana!
Confesso que nunca gostei da África do Sul, nem
antes, nem depois do apartheid. Tenho muitos familiares
que por lá passaram, tenho sobrinhos que lá
trabalham, mas nunca tive aquele país como lugar ideal
para passear ou estar. Coisa pessoal e sem explicação
plausível. Só para ter uma ideia: como homem entrei
naquele território menos de cinco vezes. Naturalmente
passo de viagem pelo Aeroporto de Joanesburgo, mas
não considero isso ir à África do Sul. Detesto o país e
o carácter violento dos sul-africanos.
Fui criado num ambiente eminentemente religioso,
anglicano, onde tudo o que é violência é proibido, é
coisa do Satanás. Na minha adolescência briguei com
dois jovens da minha idade a ponto de chegarmos a
vias de facto, sendo que fomos obrigados a uma reconciliação
que, na minha tradição, passa por beber
água do mesmo copo, de pau com um carvão a brasa.
Até hoje não consigo explicar, mas é assim como as
“grandes” brigas terminam ou terminavam na minha
terra. Com os dois continuámos amigos até que cada
um seguiu o seu rumo.
Aquilo que está a acontecer com os nossos concidadãos
na África do Sul não só não é admissível como
é condenável a todos os títulos. Não é preciso recordar
aos sul-africanos o papel de Moçambique para a
libertação daquele país do sistema do apartheid. Ainda
que não tivéssemos jogado nenhum papel, existe o
princípio de convivência entre pessoas, entre humanos,
independentemente das diferenças entre as pessoas.
Perseguir, violentar, matar e decepar partes do corpo
de uma pessoa e exibir são coisas que devem colocar o
governo da África do Sul no tribunal dos direitos humanos.
Basta de boas relações políticas que só servem para as elites
políticas, quando os povos desses países estão desavindos.
Discordo com a forma “mansa” como o nosso Governo lida
com este dossier. É preciso responsabilizar os sul-africanos
e o respectivo Governo. É preciso avançar-se para a acção
de boicote a vários níveis, incluindo impedí-los de cá virem.
É verdade que ganhamos com o turismo, mas se a
nossa terra é espaço preferencial para o turismo, outros
utilizadores cá virão. Outros compreenderão as nossas
razões e nos apoiarão, porque, acima de tudo, estão
em causa os direitos humanos mais elementares, o
direito à vida. As diferentes organizações da sociedade
civil e contrariando o Governo devem denunciar estes
Reflexão (245) de: Adelino Buque
Basta de xenofobia
sul-africana!
assassinatos bárbaros e hediondos. Devemos todos
colocar os sul-africanos no seu devido lugar.
Os investimentos da África do Sul não crescem em
Moçambique porque somos simpáticos, isso sucede
porque ganham fabulosos lucros com os negócios. É
preciso que se sintam afectados através do boicote
total aos produtos e bens daquele país. Temos muitas
alternativas, mas, também, com o que está a acontecer,
as instituições governamentais devem reflectir sobre
o que fazer para que cresçam postos de trabalho em
Moçambique e boa parte dos cidadãos fique a trabalhar
no país e se ache livre desses sanguinários.
Definitivamente, devemos condenar os actos xenófobos
com toda a energia que temos, devemos lutar
por levar os sul-africanos e respectivo Governo à barra
do Tribunal e, se calhar, isolar nas relações com outras
sociedades do mundo. Na verdade, diz o velho ditado
africano que cada um chora a sua mãe, mas na África
do Sul não são somente os moçambicanos que estão a
ser vítimas de xenofobia. São todos aqueles que não são
nativos e que vivem nos subúrbios que, aos olhos dos
nativos, roubam-lhes espaços de prosperarem, como se
para prosperar bastasse ser nativo e não pelo trabalho.
Estes cidadãos nunca foram preferência das grandes
companhias mineiras para trabalharem porque são
preguiçosos. A ida dos moçambicanos, mesmo no tempo
do apartheid, não era por mera simpatia, era para
colmatar o deficit de mão-de-obra que as mineradoras
precisavam para o trabalho, por isso esses cidadãos
que os alojamos e por eles sofremos bombardeamentos
do apartheid são esses ingratos que hoje nos decepam
cabeças, retiram-nos intestinos, matam-nos e pilham
parcos recursos que ganhamos.
Basta de XENOFOBIA! Adelino Buque, Correio da Manhã, Maputo
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Que faremos nós com a Líbia?
Infelizmente, poderá ter de haver ainda recurso à força, por parte da comunidade internacional, para se tentar preservar a unidade da Líbia, onde é essencial um acordo entre liberais seculares e fundamentalistas islâmicos, de modo a controlar as milícias armadas que têm agendas múltiplas e aterradoras.
Jorge Heitor
O Vaticano disse que a força poderá ser necessária para acabar com os ataques aos cristãos e a outras minorias que vivem na Líbia e que estão a ser vítimas do Estado Islâmico (EI), essa nebulosa entidade que a partir do Iraque e da Síria começou a lançar tentáculos até às fronteiras da Tunísia.
O arcebispo Silvano Tomasi, principal diplomata da Santa Sé acreditado junto das instituições da ONU com sede em Genebra, na Suíça, afirmou que a força poderá mesmo ser necessária para fazer frente aos jihadistas que estão a cometer um autêntico genocídio e que têm de ser detidos antes de eventualmente entrar em território tunisino e argelino.
O Vaticano opõe-se normalmente a intervenções militares no Norte de África, mas agora as coisas chegaram a um ponto tal que tudo está em causa, incluindo a produção petrolífera, que fazia com que a Líbia tivesse um Produto Nacional Bruto per capita superior ao do Líbano, de Marrocos ou da Nigéria.
O Papa Francisco e com ele toda a Igreja Católica ficaram chocados com o facto de, em Fevereiro, o EI se ter atrevido a decapitar 21 cristãos coptas do Egipto que estavam a viver na Líbia, essa entidade tão periclitante desde que, há quatro anos, foi derrubado o coronel Muammar Khadafi.
O fundamentalismo islâmico
Num mundo em que a África do Norte e o Médio Oriente são maioritariamente muçulmanos, face ao cristianismo vigente na África Austral, na Europa e nas Américas, os radicais islâmicos decidiram perseguir os grupos religiosos minoritários que vivem no Iraque, na Síria e na Líbia, tendo obrigado milhares de pessoas a deixar as suas casas.
Numa entrevista dada ao site católico norte-americano Crux, monsenhor Silvano Tomasi afirma que o que se torna nesta altura necessário é uma coligação coordenada e muito bem pensada, para fazer tudo o que for possível para se encontrar uma solução para o caso líbio.
Se nada se conseguir sem violência, então terá mesmo de se recorrer ao uso da força, de modo a que o terror não alastre, afectando inclusive a Tunísia, a Argélia e Marrocos.
O que se pretende é preservar os direitos das minorias, sejam elas cristãs, yazidis, xiitas, sunitas ou alauitas; e para isso terá de haver uma grande coligação, em que tanto estejam americanos como europeus e países muçulmanos do Médio Oriente, como a Arábia Saudita e a Jordânia.
Execuções sumárias
As execuções sumárias, as conversões forçadas, as violações e outros abusos a que estão sujeitas as minorias poderão tornar-se uma triste realidade quase quotidiana no Iraque, na Síria, na Líbia e outros países, se a Humanidade não acordar a tempo para o que se está a passar.
O artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, garante a cada um a liberdade de religião, mas a verdade é que temos vindo a assistir a fortes restricções, no Irão, no Iraque, na Síria, na Rússia, na China, na Birmânia, na Indonésia, no Sudão e em outros países.
Os muçulmanos representam 23 por cento da população mundial; e o que nós queremos é que a maioria deles não seja injustamente identificada com as suas franjas mais radicais, como a Al Qaeda e o Estado Islâmico, este último proclamado em 29 de Junho de 2014 por Abu Bakr al-Bagdadi.
Os comandos e ramos regionais daquelas duas entidades fazem-se hoje em dia sentir no Mali, no Níger, na Argélia, na Nigéria, na Tunísia, na Líbia, no Egipto, na Somália, no Iémen, na Síria, no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão, bem como no Cáucaso e no Uzbequistão.
Um autêntico caos
Em Sirta, no litoral líbio, 450 quilómetros a leste de Tripoli, a capital, têm-se verificado inclusive combates entre jihadistas do EI e milícias da coligação Fajr Libya, num xadrez bem difícil de entender e em que todos parecem estar contra todos, só procurando levar a água ao seu moinho, sem qualquer preocupação com a unidade nacional.
Existem essencialmente duas autoridades na disputa do poder: um Parlamento e um Governo no Leste do país, a Cirenaica, e um Parlamento e um Governo paralelos mantidos em Tripoli pela Fajr Libya, que em Agosto de 2014 tomou conta da capital e de uma grande parte da região ocidental, a Tripolitânia.
Ou seja, a maior parte do país encontra-se sob o controlo de milícias islamitas e só uma pequena parte é que é controlada pelo Governo instalado em Tobruk; o tal que é reconhecido por uma grande parte da comunidade internacional mas que pouco peso efectivo tem.
As duas administrações rivais, a de Trípoli e a de Tobruk, tentam combater a influência do Estado Islâmico, o mesmo que se encontra implantado em vastas regiões da Síria e do Iraque e que de igual modo deseja dar cartas no Egipto e na Líbia, para ficar a ser a potência dominante desde as fronteiras do Irão até às da Argélia e da Tunísia.
De Noufliyeh a Derna
Noufliyeh, 120 quilómetros a leste de Sirta, é um feudo do EI, que de igual modo se encontra presente em Derna, 730 quilómetros mais a leste.
Enquanto isto, a ocidente de Tripoli, as forças pró-governamentais do general Khalifa Haftar, cujo peso está em crescendo, efectuam raides aéreos na região de Zouara, depois de a Fajr Libya ter atacado o aeroporto de Zentan, 160 quilómetros a sudoeste da capital oficial do país.
Todas estas coisas acontecem numa altura em que, desde meados de 2014 até Março deste ano de 2015, mais de 25.000 combatentes estrangeiros, de 100 nacionalidades, aderiram a grupos extremistas tais como a Al-Qaeda e o EI, conforme se explica num relatório das Nações Unidas enviado há pouco ao Conselho de Segurança.
O número de jihadistas estrangeiros que afluíram em cerca de nove meses às grandes zonas de conflito aumentou 71 por cento, de modo que o problema é hoje em dia muito mais grave do que o seria em Abril ou Maio do ano passado.
Universidades do terror
A Síria e o Iraque são, claro, os maiores destinos dos jovens fanáticos, tendo-se transformado nas escolas superiores do terror que durante os próximos meses e anos nos irá atormentar. Mas depois, se por acaso for possível o EI ser derrotado naqueles dois países, os jihadistas que de lá saírem poderão espalhar-se por todo o mundo, desde a África Oriental ao Magrebe.
Há já largas centenas de combatentes extremistas na Líbia, no Iémen, no Paquistão e na Somália, oriundos de países tais como a Tunísia, Marrocos, a França, a Rússia e a Finlândia.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas tinha pedido o ano passado a alguns peritos que investigassem a ameaça que é constituída pelos combatentes estrangeiros que iam aderindo ao EI e aos demais grupos militantes, como a Ansar al-Charia, os Signatários pelo Sangue, os Soldados do Califado, o Boko Haram, o Ansar Bait al-Maqdis e o Al-Chabab.
No fim de Março último ficou pronto o assustador relatório desses especialistas, segundo os quais o fluxo de combatentes estrangeiros às áreas onde prolifera o radicalismo islamita cresceu de alguns milhares há uma década para um nível nunca dantes alcançado.
Ou seja, o derrube de ditadores como Saddam Hussein e Muammar Khadafi em nada contribuiu para melhorar o panorama geral nas terras compreendidas entre o Mediterrâneo e o Paquistão, tal como as ditas Primaveras Árabes, nas quais se depositou tanta esperança, em pouco melhoraram, até agora, o quotidiano de líbios, egípcios, sírios, iraquianos ou iemenitas.
(Este artigo vai sair em Maio na revista comboniana Além-Mar)
terça-feira, 17 de março de 2015
Da Lili da Parede às bolanhas da Guiné-Bissau
"Recordo-me da menina mais espampanante, na altura areia de mais para qualquer camioneta, a Lili da Parede, uma louraça bem bronzeada, que andava um ou dois anos mais adiantada (creio que frequentava 0 6º, quando nós andávamos no 4º ou 5º)e que hoje dá pelo nome de Lili Caneças".
Quem assim escreve é o embaixador Francisco Manuel Guimarães Henriques da Silva, no livro "Guerra na Bolanha", hoje lançado pela editora Âncora, no seu programa sobre o fim do império colonial português.
O diplomata nasceu em 17 de Dezembro de 1944, em Lisboa. E Maria Alice Custódio de Carvalho Monteiro, a Lili da Parede, em 4 de Abril desse mesmo ano, na Guarda.
"Recordo-me das lições do falecido professor Marcello Caetano. O mestre subia à tribuna, ladeado por dois assistentes, Diogo Freitas do Amaral e Miguel Galvão Teles. Os 300 e tal alunos levantavam-se".
Estas são mais algumas linhas das memórias do embaixador Francisco Henriques da Silva, que nos fala dos anos da sua formação, da ida para a Guiné como alferes miliciano e do ingresso na carreira diplomática, que o levaria aos Estados Unidos, à França, ao Canadá, a Bissau, à Costa do Marfim, à Índia, ao México e à Hungria.
Manuel Barão da Cunha, coordenador do Programa Fim do Império, escreveu uma nota prévia ao livro de 302 páginas hoje lançado e Mário Beja Santos redigiu o prefácio, no qual chama a atenção para as dificuldades que se poderiam sentir no regresso a casa, depois de dois anos de comissão de serviço no Ultramar.
Numa linguagem excepcionalmente fluente, ao alcance de qualquer um, Francisco Henriques da Silva conta-nos o seu nascimento na Avenida Rovisco Paes, junto ao Instituto Superior Técnico, a breve passagem pelo Bairro Azul, a ida para o Restelo, as sessões de cinema no São Jorge e outras salas, o nível da Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, do Teatro Experimental de Cascais e do Teatro Estúdio de Lisboa, de Luzia Maria Martins e Helena Félix; e fala-nos de tantas, tantas outras coisas, particularmente queridas a quem hoje anda na casa dos 67/70 anos.
Vitorino Nemésio, António Lopes Ribeiro, João Villaret e Pedro Homem de Mello não poderiam deixar de ser evocados, quando se está a contar o como era Portugal na década de 1960, quando ele passou por Mafra, Castelo Branco, Tancos e Amadora, antes de ter viajado para Bissau no navio "Uíge".
No Depósito de Adidos, em Brá, Francisco Henriques da Silva teve a oportunidade de ouvir logo a seguir à chegada o então governador e comandante-chefe das tropas destacadas na Guiné, António de Spínola, "de monóculo, pingalim e luvas, acompanhado pelo seu habitual séquito".
Naquela altura, conta o autor do livro, que tem 302 páginas, António Sebastião Ribeiro de Spínola "encarnava, ou julgava encarnar, tudo: os Lusíadas, a bandeira verde-rubra, Afonso e Mouzinho de Albuquerque combinados, Aljubarrota e os conjurados de 1640...".
Era, realmente, um grande sonhador, esse oficial general que durante meia dúzia de anos tudo fez para chegar à chefia do Estado, lugar no qual só se aguentaria por alguns meses. Pobre Napoleão tresloucado, que em 11 de Março de 1975 ainda tentou reconquistar Belém.
De todas estas coisas e de muitas, muitas mais, nos fala o embaixador Francisco Henriques da Silva, que inclusive relata conversas com o sogro, António Rosa Casaco, inspector da PIDE/DGS, que foi correio diplomático entre Salazar e Franco, durante a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial.
"Não me posso, nem me devo queixar da vida, à parte os pequenos percalços do quotidiano, que, obviamente, também os houve", conclui o autor de "Guerra na Bolanha", pessoa que em Setembro de 2012 já nos dera as "Crónicas dos (Desfeitos) da Guiné", nas Edições Almedina.
JH 17 de Março de 2015
terça-feira, 3 de março de 2015
Boko Haram é dominado pela etnia Kanuri
A rebelião do Boko Haram, na Nigéria, e a sua repressão já deixaram mais de 13 mil mortos e um milhão e meio de desalojados desde 2009. Neste contexto, as eleições presidenciais e legislativas, que eram para ter sido em Fevereiro, foram adiadas por seis semanas, para o fim de Março. E o problema, bastante complexo, poderá não se ficar por aqui.
Jorge Heitor
O líder do Boko Haram, Abubakar Shekau, ameaçou impedir a concretização das eleições gerais previstas para dia 28 de Março na Nigéria. E fê-lo no primeiro vídeo divulgado por aquele grupo fundamentalista na rede Twitter, numa altura em que se está a verificar uma nítida mudança de táctica da organização no que diz respeito às suas comunicações com o resto do mundo, uma vez que elas se estão a tornar muito mais sofisticadas.
Tivesse ou não havido essa ameaça explícita, os peritos em assuntos da região já calculavam que poderia muito bem ser impossível votar numa parte do Nordeste da Nigéria, onde se centra a actividade do grupo de Shekau, entretanto também alargada aos Camarões, ao Chade e ao Níger.
As eleições já tinham sido adiadas seis semanas, de 14 de Fevereiro para 28 de Março, tanto devido aos ataques do Boko Haram como a dificuldades logísticas; e ficou no ar a hipótese de nem tudo ficar devidamente esclarecido antes de Abril.
Se em algumas zonas do país não tiver sido possível votar no fim de Março, terá de se ir para uma segunda volta, algumas semanas depois, continuando assim em suspenso a grande e volúvel federação que é a Nigéria.
Insegurança generalizada
A violência destes últimos meses tem sido sobretudo no Nordeste do país, mas também no Sul, anteriormente relativamente poupado pela instabilidade, que está a ganhar uma dimensão regional, tocando de igual modo os Camarões, o Chade e o Níger.
Desde as alturas do Maciço de Air, no Sara, até às fronteiras do Sudão e do Sudão do Sul, nada é agora seguro, numa África que teima em viver permanentemente agitada, muito longe dos dias relativamente calmos que vamos tendo em Portugal, na Espanha ou na França.
Na estrada de Maiduguri, no Nordeste da Nigéria, violentos combates têm colocado frente a frente o Exército do Chade e combatentes do Boko Haram, que poderão totalizar 6.000, segundo cálculo dos serviços secretos norte-americanos.
Os Camarões, o Níger e o Chade colocaram as suas tropas ao serviço da Nigéria, procurando mobilizar um corpo de 8.700 homens contra o grupo terrorista Boko Haram, cujo comportamento tanto se assemelha o do Estado Islâmico do Iraque e do Levante. São como que as duas faces de uma mesma moeda: o fundamentalismo islâmico, que tanto se pode revelar no Mali como nas margens do Lago Chade e nas bacias do Tigre e do Eufrates.
Um perigo subestimado
O Presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, reconheceu em Fevereiro ter subestimado a capacidade do Boko Haram, apesar de o escritor Wole Soyinka já ter considerado há muito que o que se passa com o Boko Haram é muito mais grave do que aquilo que aconteceu durante a guerra do Biafra, travada no Sueste da Nigéria entre 1967 e 1970.
Nos últimos seis anos, as forças armadas nigerianas têm sido incapazes de travar a expansão do fundamentalismo islâmico, pelo que foi agora necessário o Exército do Chade assumir o comando da luta regional contra tal perigo, que aliás já se fazia sentir a algumas dezenas de quilómetros da capital chadiana, N'Djamena.
Por ter andado muito distraído, Goodluck Jonathan poderá agora não ter qualquer hipótese de ser reeleito, face ao desafio constituído pelo candidato Muhammadu Buhari, antigo chefe de Estado, num dos períodos em que os militares estiveram no poder.
Teme-se bastante uma espécie de repetição da crise de 1993, quando foi detido o candidato Moshood Abiola e subiu ao poder o general Sani Abacha, pelo que todo o mês de Abril vai ser de uma tensão constante, prejudicando bastante as aspirações da Nigéria a ter um lugar permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
A maior economia africana
Há quem lhe queira chamar a maior economia africana, mas a verdade é que o Produto Nacional Bruto da Nigéria não ultrapassa os 3.280 dólares per capita, bem inferior ao da África do Sul. E a construção e os serviços, mais do que o petróleo, é que poderão ajudar agora os 184 milhões de nigerianos, divididos de um modo geral entre uma parte setentrional muçulmana e uma metade meridional cristã.
A necessidade de levar até ao fim as eleições, num clima razoável, e o imperativo de controlar de forma eficaz o Boko Haram andam de mãos dadas, para que daqui a alguns meses já se possa circular com alguma segurança por terras como Sokoto, Kano, Zaira, Maidougari, Jos e Bauchi.
A estabilização da Nigéria, bem como a do Mali, do Níger e do Chade, é essencial para que milhares e milhares de homens desesperados não se metam a atravessar o Sara, rumo ao Mediterrâneo, tantas vezes para ir morrer à vista de Lampedusa, de Malta ou da Sicília.
A corrupção e as deserções têm de acabar, se a federação nigeriana realmente pretender acabar com o Boko Haram e passar a uma nova fase da sua existência, sempre tão periclitante desde a obtenção da independência, em 1960.
Uma desgraça de militares
Longe de contribuírem para a resolução dos problemas federais, as Forças Armadas da Nigéria têm contribuído muitas vezes para o sofrimento geral, impedindo o conjunto de se afirmar claramente como um dos grandes países do mundo; e uma autêntica potência regional, capaz de dar cartas na Serra Leoa, na Libéria, na Costa do Marfim, no Gana, no Burkina Faso, no Togo e no Benin.
Apesar de serem constituídas por 80.000 homens, com dezenas de aviões de combate e oficiais altamente qualificados, as tropas nigerianas têm-se coberto de vergonha ao serem incapazes de neutralizar o Boko Haram, que as deixou pelas ruas da amargura.
Um total de 11.000 vítimas em seis anos, 4.000 das quais só em 2014, são o resultado da incapacidade do Presidente da República, do Governo e dos militares para travar o passo aos fundamentalistas islâmicos, que parecem imparáveis.
Antes, as Forças Armadas ainda eram coordenadas, rigorosas profissionais, mas agora, como explica o investigador Samuel Nguembock, já não se apresentam como um corpo unificado. O Presidente da República não controla o Estado-Maior General e este não controla as unidades que estão no terreno, diz outro especialista, Marc-Antoine Pérouse de Montclos. Toda a cadeia de comando se tem estado a desmoronar.
O factor Kanuri
Um dos aspectos de que pouco se tem falado, ao abordar o movimento jihadista e salafita que atormenta o Nordeste da Nigéria, é o de ele ser essencialmente constituído por elementos de etnia Kanuri e grupos a ela associados. O Boko Haram é dominado por um grupo étnico que representa apenas cerca de oito por cento de toda a população muçulmana nigeriana.
Não é propriamente uma rebelião tribal, no sentido clássico da expressão, mas teve as suas raízes, no início deste século, sob a direcção de Mohammed Yusuf, na cidade de Maiduguri, de maioria Kanuri, capital do estado de Borno, e contou até com o apoio do então governador estadual, Ali Modu Sheriff, que se manteve no cargo até 2011.
Actualmente, para além de se tratar de um movimento que defende uma alegada pureza de certos princípios islâmicos, o Boko Haram também tende a reconstituir as estruturas políticas que existiam na região antes da colonização britânica, no tempo dos impérios de Bornu (1380-1893) e de Karem (ainda mais antigo).
Por isso mesmo é que as actividades deste movimento jihadista não se restringem ao Nordeste da Nigéria, antes penetrando em territórios do Níger, do Chade e dos Camarões que outrora, durante muito mais de 500 anos, fizeram parte do conjunto político Bornu-Karem.
Certos militares nigerianos, imbuídos de sonhos do passado, de memórias míticas de uma grandeza antiga, chegam a informar o Boko Haram dos movimentos determinados pela oficialidade. E até lhe vendem armas, mormente nos casos em que são privados de pré, ou salário, por comandantes pouco escrupulosos, que na guerra só vêm uma forma de enriquecimento.
É toda esta complexidade de problemas, com o peso esmagador da História a influir na actualidade, que temos de ter em conta quando nos debruçamos sobre o que é que está a acontecer na Nigéria, um país relativamente recente, sobre o qual ainda pairam muitas sombras do passado.
Só se o fizermos, no âmbito de uma reflexão geopolítica, é que poderemos começar a pensar no que irá acontecer depois da ida às urnas: será o Boko Haram devidamente controlado ou a falta de segurança ainda se agravará, com fortes implicações para todo o enorme país e para a região na qual ele se insere?
(este artigo vai sair em Abril na revista missionária comboniana Além-Mar, por encomenda da qual foi escrito)
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Nós não somos Hollywood
"Aquilo não tem nada a ver connosco!", reconhecia ontem, fascinado, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, ao falar na TVI sobre a entrega dos Óscares do cinema norte-americano e ao manifestar o desejo de um dia assistir em directo a essa cerimónia.
Claro que não tem nada a ver connosco. E se não tem nada a ver não se justifica ir lá nem assistir pela televisão.
É um mundo de fantasia, fechado em si mesmo, nos valores da América do Norte.
Aquelas pessoas que ali se juntam, desfilando pela tão falada passadeira vermelha, estão-se nas tintas para as dificuldades da Grécia, para a guerra na Ucrânia, para a dilacerada Líbia, para a guerra civil na Síria, para o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, para o Boko Haram, para as desastrosas chuvas de monção em terras asiáticas.
Se eles só vivem para os seus vestidos, as suas luvas, as suas jóias, os seus smokings, nós não temos nada a ver com eles.
Nós temos é que nos preocupar com uma Europa mais bem governada, mais equitativa, com a pacificação da Ucrânia, da Líbia e da Síria, não é com as festas que se fazem em Los Angeles, na Califórnia, do outro lado do Atlântico e da própria América do Norte.
Basta de colonização mental, como aquela que sofremos há 60 ou 70 anos, subordinados aos valores de uma nação que se constituiu chacinando as nações ameríndias.
"Aquilo não tem nada a ver connosco", os que aqui, na Europa, procuramos levar uma vida digna, com reformas justas, com menos desemprego.
Portanto, não temos de passar horas e horas, na rádio e na televisão, a falar dos malditos Óscares, que são deles, os norte-americanos, os opressores dos apaches, sioux e outros ameríndios.
Basta de viver subordinado aos valores dos Estados Unidos da América. JH 23 de Fevereiro de 2015
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Festival da Canção 2015
A RTP acaba de anunciar, em conferência de imprensa, os nomes dos compositores, autores e artistas participantes no Festival da Canção 2015, bem como os títulos das canções.
Título: À espera das canções
Intérprete: Simone de Oliveira
Música: Renato Júnior
Letra: Tiago Torres da Silva
Título: A noite inteira
Intérprete: Filipa Baptista
Música: Augusto Madureira
Letra: Augusto Madureira
Título: Outra Vez Primavera
Intérprete: Yola Dinis
Música: Nuno Feist
Letra: Nuno Marques da Silva
Título: Dança Joana
Intérprete: Filipe Gonçalves
Música: Héber Marques
Letra: Héber Marques
Título: Um Fado em Viena
Intérprete: Teresa Radamanto
Música: Fernando Abrantes
Letra: Jorge Mangorrinha
Título: Quando a lua voltar a passar
Intérprete: Rubi Machado
Música: Sebastião Antunes
Letra: Sebastião Antunes
Título: Há um mar que nos separa
Intérprete: Leonor Andrade
Música: Miguel Gameiro
Letra: Miguel Gameiro
Título: Maldito Tempo
Intérprete: Diana Piedade
Música: Carlos Massa
Letra: Carlos Massa
Título: Mal menor (Ninguém me guia à razão)
Intérprete: José Freitas
Música: Chukry (Diogo Rodrigues)
Letra: Chukry (Diogo Rodrigues)
Título: Paz
Intérprete: Adelaide Ferreira
Música: Adelaide Ferreira
Letra: Adelaide Ferreira
Título: Tu tens uma mágica
Intérprete: Gonçalo Tavares
Música: Gonçalo Tavares
Letra: Gonçalo Tavares & José Cid
Título:Lisboa, Lisboa
Intérprete: Rita Seidi
Música: Sara Tavares
Letra: Sara Tavares & Kalaf
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