terça-feira, 2 de junho de 2015

Costa do Marfim: Em ano de eleições

Pilhado e incendiado na sequência das violentas manifestações anti-francesas de 2004, o maior liceu francês de Abidjan, centro comercial da Costa do Marfim, reabriu oficialmente as suas portas esta semana, depois de 11 anos de encerramento. E a reabilitação custou 11 milhões de euros. O país, que no original se intitula Cote d'Ivoire, manteve fortes laços com a França depois de se ter tornado independente, em 1960. O desenvolvimento da produção do cacau para exportação e o investimento estrangeiro fizeram dele um dos mais prósperos da África Ocidental, mas não o protegeram de alguma agitação política. Em Dezembro de 1999, um golpe militar derrubou o Governo; e o líder da junta que se seguiu, Robert Guei, deturpou as eleições efectuadas em finais de 2000, proclamando-se ilegalmente vencedor. Mas o protesto popular obrigou-o a retirar-se e levaram ao poder o historiador socialista Laurent Gbagbo. Depois, políticos da oposição e militares desencantados tentaram novo golpe em Setembro de 2002, do que resultou uma rebelião e uma guerra civil, que terminou em 2003 com o país partido ao meio: os rebeldes no controlo do Norte e o Governo no Sul, com uma zona tampão entre eles. Em Março de 2007, o Presidente Gbagbo e o antigo líder rebelde das chamadas Forças Novas, Guillaume Soro, assinaram um acordo pelo qual este último passava a ser primeiro-ministro. Mais tarde, nas eleições de Novembro de 2010, o liberal Alassane Dramane Ouattara ganhou, mas Gbagbo não aceitou passar-lhe o testemunho, pelo que tivemos cinco meses de impasse. Até que, em Abril de 2011, depois de muita luta, Gbagbo foi à força afastado do poder por partidários de Ouattara, antigo quadro do Fundo Monetário Internacional (FMI). Milhares de capacetes azuis das Nações Unidas e centenas de soldados franceses ficaram na Costa do Marfim, para garantir que a situação se iria normalizar, de acordo com o desejo do FMI, dos Estados Unidos e de outras instâncias. O triunfo do liberalismo O desejo do liberal Ouattara, muito amigo de Nicolas Sarkozy, é reconstituir as infraestruturas de uma antiga colónia que teve como primeiro Presidente Félix Houphouet-Boigny, aquele que transferiu a capital de Abidjan para a sua terra natal, Yamassoukro, onde ergueu uma catedral à imagem e semelhança da de São Pedro, em Roma. Muitos dos partidários do Professor Laurent Gbagbo refugiaram-se no vizinho Ghana, enquanto ele se encontra na Haia, a aguardar julgamento pelo Tribunal Penal Internacional. As próximas eleições presidenciais vão ser em Outubro, com probabilidade de reeleição de Ouattara, apadrinhado pela grande finança internacional, que o considera um homem providencial e o salvador de um país que andava à deriva, nos tempos do socialista Gbagbo. Ele é um homem do Norte, com laços ancestrais ao Burkina Fasso, que antigamente se chamava Alto Volta. Nasceu em Dimbokro, no centro, em 1942, e aos 20 anos terminou o liceu em Ouagadougou, a capital burkinabe. Depois, com uma bolsa norte-americana, prosseguiu os estudos nos Estados Unidos, tendo-se doutorado em ciências económicas na Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia. Seguiu-se a entrada no FMI, em Washington, no ano de 1968. Cinco anos mais tarde, Ouattara foi recrutado para o Banco Central dos Estados da África Ocidental (BCEAO), que tinha então a sede em Paris, antes de em 1978 a haver transferido para 1978. O socialista Gbagbo Quanto ao antigo Presidente Gbagbo, nasceu dia 31 de Maio de 1945 em Gagnoa, numa família católica, e estudou História na Universidade de Abidjan, depois do que passou para a Sorbonne, em Paris, de onde saiu para leccionar na Costa do Marfim, onde se envolveu em actividades políticas que em 1971 o levaram à cadeia. Em 1980 Gbagbo passou a director do Instituto de História, Arte e Archeologia Africana da Universidade de Abidjan, depois do que formou a Frente Popular Marfinense e passou pelo exílio na França, onde contava com toda a simpatia e solidariedade do Partido Socialista. Em Abril de 1990 o histórico Houphouët-Boigny, do qual Alassane Dramane Ouattara chegou a ser primeiro-ministro, reconheceu os partidos da oposição e marcou eleições multipartidárias, que ganhou, mas em 1993 viria a morrer, tendo-lhe sucedido o ministro das Finanças, Henri Konan Bédié, que em 1999 foi deposto pelo golpe do general Robert Gueï. É assim, com uma séria de acidentes de percurso, que tem vindo a decorrer a vida do maior produtor mundial de cacau.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Thomas Sankara vai ser exumado

Promises par les autorités de transition, les opérations d'exhumation des corps supposés de Thomas Sankara et de ses douze camarades assassinés le 15 octobre 1987 débuteront le lundi 25 mai au cimetière Dagnoën de Ouagadougou. Après des années de blocage judiciaire, l'enquête sur l'assassinat du président Thomas Sankara va bientôt connaître un tournant décisif. Lundi 25 mai, trois experts - deux médecins légistes burkinabè et un français, le professeur Alain Miras - débuteront, sur ordre du juge d'instruction militaire François Yaméogo, l'exhumation des corps supposés du capitaine révolutionnaire et de ses douze camarades, au cimetière de Dagnoën, à Ouagadougou. >> Lire aussi Burkina Faso : l'affaire Thomas Sankara, chronique d'un déni de justice Selon Me Benewende Sankara, avocat de la famille de l'ancien chef de l'État, les opérations débuteront à 8h du matin en présence des familles des victimes. La première tombe ouverte sera très probablement celle de Thomas Sankara. Si l'ouverture des sépultures et les prélèvements ADN sur les corps supposés ne devraient prendre que quelques jours, l'analyse des résultats devrait, elle, être moins rapide. Selon une source proche du dossier, "les prélèvements seront sûrement analysés dans des laboratoires étrangers". Depuis la chute de Blaise Compaoré, le 31 octobre dernier, l'espoir de découvrir la vérité sur la mort du président Sankara a refait surface au Burkina Faso. Pour la première fois en près de vingt ans de procédures, un juge d'instruction a été nommé et chargé d'enquêter sur cette affaire d'État. Il a commencé par placer sous scellé, le 9 avril, les treize tombes présumées de Thomas Sankara et de ses camarades, assassinés par un commando d'hommes armés le 15 octobre 1987 au Conseil de l'entente. Il a ensuite entamé les auditions de témoins ou de proches des victimes. Mariam Sankara, la veuve de l'ancien président, a notamment été entendue pendant plus de huit heures le 18 mai, quatre jours après son retour symbolique à Ouagadougou. Lire l'article sur Jeuneafrique.com : Justice | Burkina : l'exhumation du corps supposé de Thomas Sankara débutera le 25 mai à Ouagadougou | Jeuneafrique.com - le premier site d'information et d'actualité sur l'Afrique Follow us: @jeune_afrique on Twitter | jeuneafrique1 on Facebook

Auf wiedersehen, Berlin!

Ao som de música russa, sento-me no sofá grande da sala; e sei que ali em frente alguém dança Hamlet. Tenho calor. Desaperto mais um dos botões da camisa. Tento fazer o mesmo ao cinto e vejo os turbantes dos árabes que porventura entraram agora em cena. O cão de pelo negro, encaracolado, dorme a meus pés. O gato repoisa no sofá ao lado. E a conversa agora é numa das línguas da antiga Jugoslávia. Aperta o calor. Sinto que a refeição me ficou pesada, mas também estou demasiado cheio para ir passear até ao parque. Peço ao cigano mais próximo que toque para mim, enquanto as jovens pioneiras cantam as marchas. Surge no ambiente o som de uma flauta; e com isto se interrompe a cena. Dia e meio depois, um parque, um relvado, à beira de um lago. Um sol esplendoroso. Ruído de helicóptero na paisagem. Árvores verde-escuras da Prússia. O creme de bronzear a derreter-se na cara. O velho, cheio de varizes, que coxeia. O cão que não quer ir até à água. Pachorrentamente deitado junto da bicicleta. Um parto difícil no centro da capital. Um homem que dá corda ao seu realejo. Um bar cheio de fumo. A voz de Sinatra. Um parque nocturno. As sombras que passeiam. Volkspark. Grunewald. Os marcos de um descanso berlinense. O pai que brinca com a filha. O suor que escorre pelo rosto. Os corpos desnudos. As bombas que rebentam. Jugoslavos e turcos trabalham na cidade. Os carros blindados continuam a passar. Intensifica-se o som de um helicóptero. Surgem bandas na avenida. Ladra um cão. É o tempo berlinense. A saudade de uma Prússia perdida. Bitte Schön. Danke Schön. O Tédio. Jorge Máximo Heitor, Agosto de 1973

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Togo, um país infeliz

As eleições presidenciais nada mudaram num território que o explorador Gustav Nachtigal anexou em 1884 em nome do imperador da Alemanha e ao qual deu o nome de Togo, que era apenas o de uma aldeia. O pequeno país continua a ser um dos mais infelizes ao cimo da Terra. Jorge Heitor ________________________________________ O Tribunal Constitucional do Togo confirmou que o Presidente cessante, Faure Essozimna Gnassingbé, conseguiu um terceiro mandato, com 58,77 por cento dos votos expressos, numa eleição realizada dia 25 de Abril, tendo derrotado, entre outros, o líder da oposição, Jean-Pierre Fabré, de 62 anos, que liderava a coligação Combate por uma Alternância Pacífica (CAP 2015). Esta vitória faz com que a mesma família acabe por continuar no poder durante mais de meio século, dado que Gnassingbé é Presidente desde 2005, tendo sucedido a seu pai, Eyadema, que estivera 38 anos na chefia de uma unidade territorial que chegou a fazer parte da colónia modelo do antigo império colonial alemão. O Tribunal Constitucional disse que Fabré obteve 35,19 por cento dos votos, indo o resto para os demais candidatos, que à partida já se sabia que não iriam ter qualquer hipótese: Aimé Tchabouré Gogué (ADDI), Gerry Taama (NET) e Mohamed Tchassona Traoré (MCD) obtiveram 4,03 porcento, 1,03 porcento e 0,90 porcento dos sufrágios, respectivamente De nada serviu Jean-Pierre Fabré ter considerado os resultados fraudulentos; e no Togo não existe qualquer limite legal para o número de mandatos que um Presidente pode ter, de modo que o actual status quo se poderá arrastar ainda durante muito tempo. De pai para filho Faure Gnassingbé é filho de uma senhora do Sul do país, Sabine Mensah, e de um Presidente no Norte, o velho ditador Eyadema Gnassingbé, tendo nascido em 6 de Junho de 1966, predestinado a dar continuidade a uma dinastia que começara em Abril de 1967. Tendo passado pela academia militar de Saint-Cyr e pela Universidade Paris-Dauphine, na França, o homem agora reeleito Presidente do Togo é titular de um Master of Business Administration (MBA) obtido na Universidade George Washington, dos Estados Unidos. Em 1999 foi eleito deputado por um círculo do centro do pequeno país, tendo ido logo parar à presidência da comissão parlamentar de Relações Exteriores e de Cooperação, para em 2003 conseguir ser reeleito deputado o obter o lugar de ministro do Equipamento, das Minas, dos Correios e das Telecomunicações. Era aí que estava quando o pai morreu, em 5 de Fevereiro de 2005; e o Exército colocou-o de imediato no poder, perante grande escândalo da comunidade internacional, que obrigou a que houvesse eleições, que ele naturalmente ganhou, dado o grande peso da máquina partidária do Rassemblement du peuple togolais (RPT), que fora criado em Agosto de 1967, como partido único. No entanto, de modo a que algo mudasse, para que tudo ficasse praticamente igual, o novo Presidente distanciou-se progressivamente do RPT e lançou, em Abril de 2012, a União para a República (Unir), com uma nova geração de ministros e de conselheiros. Foi aquilo a que se costuma chamar a renovação na continuidade; pouco mais do que uma operação de cosmética. 1,2 milhões de votos Faure Gnassingbé conseguiu agora 1,2 milhões de votos, face aos 692.584 do seu principal adversário, que falou de irregularidades havidas durante o escrutínio. Jean-Claude Codjo, da Comissão Nacional de Eleições, chegou a abandonar uma reunião, alegando "falta de transparência" em todo o processo. Mas nada disso impediu que o herdeiro do velho general Eyadema continue em cena por mais cinco anos, pelo menos, no âmbito de um esquema de perpetuação que conhecemos numa série de outros países africanos, como o Chade, os Camarões, Angola ou o Zimbabwe. A afluência às urnas foi de apenas 40 por cento, uma vez que a maioria da população já nem acredita muito na forma como as coisas se processam, numas terras que em Agosto de 1914 foram conquistadas aos alemães por forças franco-britânicas, numa campanha militar de escassas três semanas. Depois da II Guerra Mundial, a parte do Togo que estava a ser administrada pelo Reino Unido juntou-se à Gold Coast, para dar o Ghana, enquanto o território sob tutela francesa se tornou independente em 27 de Abril de 1960. Os primeiros anos de vida da República foram dominados por dois políticos, Sylvanus Olympio e Nicolas Grunitsky, até que em 1967 ela se tornou um feudo da famíla Gnassingbé. O país mais infeliz Num relatório internacional sobre felicidade, recentemente elaborado por um catedrático canadiano, um norte-americano e um britânico, o Togo é considerado o mais infeliz dos 158 países analisados, talvez pela falta de uma verdadeira democraticidade; e até porque, entre uma série de outros factores negativos, não existem empregos suficientes. O Produto Nacional Bruto per capita cifra-se nuns míseros 380 dólares (muito inferior ao do Quénia, de Marrocos, da Nigéria ou da África do Sul). Tendo a norte o Burkina Faso, a ocidente o Ghana e a leste o Benin, o Togo, com os seus escassos 57.000 quilómetros quadrados e a capital em Lomé, tem 6,7 milhões de habitantes (3,5 milhões de eleitores) e um clima tropical, sub-sariano, dependendo essencialmente da agricultura. Tendo em conta que já fez parte de uma colónia alemã e que depois esteve sob tutela de outras potências europeias, ainda não conseguiu desenvolver uma autêntica e sólida unidade nacional, até porque nele vivem perto de 40 grupos étnicos, a começar pelo Ewe, que representa 32 a 40 por cento da população e que domina o Sul. Um pouco mais de metade dos togoleses professam crenças indígenas, 29 por cento são cristãos e 20 por cento muçulmanos, havendo ainda um longo trabalho a fazer para superar todas estas clivagens, tanto as linguísticas como as religiosas. A etnia Kotokoli predomina no Centro e a Kabye (22 por cento da população) no Norte. As línguas do país correspondem às divisões étnicas, sendo a Ewe (ou evhé) a língua veicular no Sul, a parte mais aberta ao exterior; mas o francês tem vindo a ser progressivamente compreendido e falado nos últimos 50 anos. O factor racial Um dos motivos porque Jean-Pierre Fabré não conseguiu chegar a constituir uma alternativa de peso a Gnassingbé é o de ser mestiço, filho de um pai de origem francesa e de uma mãe togolesa, numa África Negra onde muitas vezes a miscigenação não é bem vista. Toda a sua carreira foi feita à sombra do adversário histórico dos Gnassingbé, Gilchrist Olympio, filho do Presidente Sylvanus Olympio, assassinado em Janeiro de 1963, no decurso de um golpe de estado, protagonizado pelo então sargento Etienne Eyadema e que colocou na chefia do Estado Nicolas Grunitsky. Eyadema, que viria a trocar o nome pouco africano de Étienne pelo de Gnassingbé, ficou então na sombra, por quatro anos, até que em 1967, já tenente-coronel, deu novo golpe e ficou ele mesmo como senhor todo poderoso, sem qualquer sombra de dúvida. A vitória acabou por caber, uma vez mais, à política de nacionalismo económico e cultural herdada do RPT, o partido do velho general Eyadema, que com a Nigéria promoveu a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), cuja carta foi assinada em Lomé, por 16 países, no ano de 1976. Foi sob pressão internacional que em 1993 o ditador legalizou os partidos da oposição e convocou eleições formalmente multipartidárias, que arranjou maneira de ganhar, com 96 por cento dos votos oficialmente expressos. Os 55 quilómetros de litoral togolês situam-se integralmente na região que no século XVII foi baptizada como Costa dos Escravos; e, por ironia do destino, os togoleses hoje em dia já não são de forma alguma escravos dos ingleses e holandeses de antanho, mas sim cativos de uma família política que se instalou no poder durante a década de 1960 e que parece não fazer a mínima intenção de o deixar tão depressa. 7 de Maio de 2015

terça-feira, 5 de maio de 2015

Cante Alentejano na Ovibeja

A Ovibeja, grande realização agropecuária e industrial que todos os anos se realiza na cidade portuguesa de Beja, foi desta vez, nos últimos dias de Abril e primeiros dias de Maio, dedicada ao Cante Alentejano, uma forma de música coral recentemente reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Um dos pavilhões da enorme feira, que atraiu muitos milhares de visitantes, foi especialmente dedicado à apresentação daquele género musical, que a par do Fado é um dos que mais se destacam em Portugal e marcam a identidade cultural do país. Fora de Beja, também Cuba, Serpa, Moura e outras localidades da região ostentaram nas fachadas dos seus edifícios públicos faixas de homenagem a uma expressão artística que tão bem traduz a alma do Alentejo, território vasto dominado pelas plantações de sobreiros, de onde se extrai a cortiça. Em cada Cante, em cada palavra cantada, o povo alentejano lembra o muito que tem sofrido ao longo dos tempos, mormente no tempo em que as suas terras se encontravam sobretudo na posse de grandes latifundiários, auferindo os trabalhadores, ou ganhões, salários que se poderiam considerar de miséria. Era assim há 45 ou 50 anos, antes do 25 de Abril de 1974 e da Reforma Agrária, que muito vieram modificar a forma de vida em todo o Alto e Baixo Alentejo, que se situam sensivelmente num espaço que vai de 70 a 250 quilómetros a partir de Lisboa, para Sul e Sueste. Hoje em dia, para além do tradicional sobreiro, o Alentejo também é muito conhecido pelas suas vinhas, das quais se extrai um vinho delicioso, cada vez com mais clientes. E não deixa de ter praias bem conhecidas, como Porto Covo, Vila Nova de Milfontes ou Zambujeira do Mar. O Cante é pois um grande hino a uma terra em evolução, terra onde os naturais deixaram de ser explorados como tantas vezes acontecia, tanto nos campos como nas minas. Hoje em dia há mais justiça, as pessoas sentem-se melhor, em municípios como Évora, Beja, Cuba, Serpa, Moura, Alvito ou Vidigueira. E por isso sabe sempre bem visitar ou passar alguns dias no Alentejo, uma vastidão tranquila, de grande sossego. JH 5 de Maio de 2015

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Basta de xenofobia sul-africana!

Confesso que nunca gostei da África do Sul, nem antes, nem depois do apartheid. Tenho muitos familiares que por lá passaram, tenho sobrinhos que lá trabalham, mas nunca tive aquele país como lugar ideal para passear ou estar. Coisa pessoal e sem explicação plausível. Só para ter uma ideia: como homem entrei naquele território menos de cinco vezes. Naturalmente passo de viagem pelo Aeroporto de Joanesburgo, mas não considero isso ir à África do Sul. Detesto o país e o carácter violento dos sul-africanos. Fui criado num ambiente eminentemente religioso, anglicano, onde tudo o que é violência é proibido, é coisa do Satanás. Na minha adolescência briguei com dois jovens da minha idade a ponto de chegarmos a vias de facto, sendo que fomos obrigados a uma reconciliação que, na minha tradição, passa por beber água do mesmo copo, de pau com um carvão a brasa. Até hoje não consigo explicar, mas é assim como as “grandes” brigas terminam ou terminavam na minha terra. Com os dois continuámos amigos até que cada um seguiu o seu rumo. Aquilo que está a acontecer com os nossos concidadãos na África do Sul não só não é admissível como é condenável a todos os títulos. Não é preciso recordar aos sul-africanos o papel de Moçambique para a libertação daquele país do sistema do apartheid. Ainda que não tivéssemos jogado nenhum papel, existe o princípio de convivência entre pessoas, entre humanos, independentemente das diferenças entre as pessoas. Perseguir, violentar, matar e decepar partes do corpo de uma pessoa e exibir são coisas que devem colocar o governo da África do Sul no tribunal dos direitos humanos. Basta de boas relações políticas que só servem para as elites políticas, quando os povos desses países estão desavindos. Discordo com a forma “mansa” como o nosso Governo lida com este dossier. É preciso responsabilizar os sul-africanos e o respectivo Governo. É preciso avançar-se para a acção de boicote a vários níveis, incluindo impedí-los de cá virem. É verdade que ganhamos com o turismo, mas se a nossa terra é espaço preferencial para o turismo, outros utilizadores cá virão. Outros compreenderão as nossas razões e nos apoiarão, porque, acima de tudo, estão em causa os direitos humanos mais elementares, o direito à vida. As diferentes organizações da sociedade civil e contrariando o Governo devem denunciar estes Reflexão (245) de: Adelino Buque Basta de xenofobia sul-africana! assassinatos bárbaros e hediondos. Devemos todos colocar os sul-africanos no seu devido lugar. Os investimentos da África do Sul não crescem em Moçambique porque somos simpáticos, isso sucede porque ganham fabulosos lucros com os negócios. É preciso que se sintam afectados através do boicote total aos produtos e bens daquele país. Temos muitas alternativas, mas, também, com o que está a acontecer, as instituições governamentais devem reflectir sobre o que fazer para que cresçam postos de trabalho em Moçambique e boa parte dos cidadãos fique a trabalhar no país e se ache livre desses sanguinários. Definitivamente, devemos condenar os actos xenófobos com toda a energia que temos, devemos lutar por levar os sul-africanos e respectivo Governo à barra do Tribunal e, se calhar, isolar nas relações com outras sociedades do mundo. Na verdade, diz o velho ditado africano que cada um chora a sua mãe, mas na África do Sul não são somente os moçambicanos que estão a ser vítimas de xenofobia. São todos aqueles que não são nativos e que vivem nos subúrbios que, aos olhos dos nativos, roubam-lhes espaços de prosperarem, como se para prosperar bastasse ser nativo e não pelo trabalho. Estes cidadãos nunca foram preferência das grandes companhias mineiras para trabalharem porque são preguiçosos. A ida dos moçambicanos, mesmo no tempo do apartheid, não era por mera simpatia, era para colmatar o deficit de mão-de-obra que as mineradoras precisavam para o trabalho, por isso esses cidadãos que os alojamos e por eles sofremos bombardeamentos do apartheid são esses ingratos que hoje nos decepam cabeças, retiram-nos intestinos, matam-nos e pilham parcos recursos que ganhamos. Basta de XENOFOBIA! Adelino Buque, Correio da Manhã, Maputo

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Que faremos nós com a Líbia?

Infelizmente, poderá ter de haver ainda recurso à força, por parte da comunidade internacional, para se tentar preservar a unidade da Líbia, onde é essencial um acordo entre liberais seculares e fundamentalistas islâmicos, de modo a controlar as milícias armadas que têm agendas múltiplas e aterradoras. Jorge Heitor O Vaticano disse que a força poderá ser necessária para acabar com os ataques aos cristãos e a outras minorias que vivem na Líbia e que estão a ser vítimas do Estado Islâmico (EI), essa nebulosa entidade que a partir do Iraque e da Síria começou a lançar tentáculos até às fronteiras da Tunísia. O arcebispo Silvano Tomasi, principal diplomata da Santa Sé acreditado junto das instituições da ONU com sede em Genebra, na Suíça, afirmou que a força poderá mesmo ser necessária para fazer frente aos jihadistas que estão a cometer um autêntico genocídio e que têm de ser detidos antes de eventualmente entrar em território tunisino e argelino. O Vaticano opõe-se normalmente a intervenções militares no Norte de África, mas agora as coisas chegaram a um ponto tal que tudo está em causa, incluindo a produção petrolífera, que fazia com que a Líbia tivesse um Produto Nacional Bruto per capita superior ao do Líbano, de Marrocos ou da Nigéria. O Papa Francisco e com ele toda a Igreja Católica ficaram chocados com o facto de, em Fevereiro, o EI se ter atrevido a decapitar 21 cristãos coptas do Egipto que estavam a viver na Líbia, essa entidade tão periclitante desde que, há quatro anos, foi derrubado o coronel Muammar Khadafi. O fundamentalismo islâmico Num mundo em que a África do Norte e o Médio Oriente são maioritariamente muçulmanos, face ao cristianismo vigente na África Austral, na Europa e nas Américas, os radicais islâmicos decidiram perseguir os grupos religiosos minoritários que vivem no Iraque, na Síria e na Líbia, tendo obrigado milhares de pessoas a deixar as suas casas. Numa entrevista dada ao site católico norte-americano Crux, monsenhor Silvano Tomasi afirma que o que se torna nesta altura necessário é uma coligação coordenada e muito bem pensada, para fazer tudo o que for possível para se encontrar uma solução para o caso líbio. Se nada se conseguir sem violência, então terá mesmo de se recorrer ao uso da força, de modo a que o terror não alastre, afectando inclusive a Tunísia, a Argélia e Marrocos. O que se pretende é preservar os direitos das minorias, sejam elas cristãs, yazidis, xiitas, sunitas ou alauitas; e para isso terá de haver uma grande coligação, em que tanto estejam americanos como europeus e países muçulmanos do Médio Oriente, como a Arábia Saudita e a Jordânia. Execuções sumárias As execuções sumárias, as conversões forçadas, as violações e outros abusos a que estão sujeitas as minorias poderão tornar-se uma triste realidade quase quotidiana no Iraque, na Síria, na Líbia e outros países, se a Humanidade não acordar a tempo para o que se está a passar. O artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948, garante a cada um a liberdade de religião, mas a verdade é que temos vindo a assistir a fortes restricções, no Irão, no Iraque, na Síria, na Rússia, na China, na Birmânia, na Indonésia, no Sudão e em outros países. Os muçulmanos representam 23 por cento da população mundial; e o que nós queremos é que a maioria deles não seja injustamente identificada com as suas franjas mais radicais, como a Al Qaeda e o Estado Islâmico, este último proclamado em 29 de Junho de 2014 por Abu Bakr al-Bagdadi. Os comandos e ramos regionais daquelas duas entidades fazem-se hoje em dia sentir no Mali, no Níger, na Argélia, na Nigéria, na Tunísia, na Líbia, no Egipto, na Somália, no Iémen, na Síria, no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão, bem como no Cáucaso e no Uzbequistão. Um autêntico caos Em Sirta, no litoral líbio, 450 quilómetros a leste de Tripoli, a capital, têm-se verificado inclusive combates entre jihadistas do EI e milícias da coligação Fajr Libya, num xadrez bem difícil de entender e em que todos parecem estar contra todos, só procurando levar a água ao seu moinho, sem qualquer preocupação com a unidade nacional. Existem essencialmente duas autoridades na disputa do poder: um Parlamento e um Governo no Leste do país, a Cirenaica, e um Parlamento e um Governo paralelos mantidos em Tripoli pela Fajr Libya, que em Agosto de 2014 tomou conta da capital e de uma grande parte da região ocidental, a Tripolitânia. Ou seja, a maior parte do país encontra-se sob o controlo de milícias islamitas e só uma pequena parte é que é controlada pelo Governo instalado em Tobruk; o tal que é reconhecido por uma grande parte da comunidade internacional mas que pouco peso efectivo tem. As duas administrações rivais, a de Trípoli e a de Tobruk, tentam combater a influência do Estado Islâmico, o mesmo que se encontra implantado em vastas regiões da Síria e do Iraque e que de igual modo deseja dar cartas no Egipto e na Líbia, para ficar a ser a potência dominante desde as fronteiras do Irão até às da Argélia e da Tunísia. De Noufliyeh a Derna Noufliyeh, 120 quilómetros a leste de Sirta, é um feudo do EI, que de igual modo se encontra presente em Derna, 730 quilómetros mais a leste. Enquanto isto, a ocidente de Tripoli, as forças pró-governamentais do general Khalifa Haftar, cujo peso está em crescendo, efectuam raides aéreos na região de Zouara, depois de a Fajr Libya ter atacado o aeroporto de Zentan, 160 quilómetros a sudoeste da capital oficial do país. Todas estas coisas acontecem numa altura em que, desde meados de 2014 até Março deste ano de 2015, mais de 25.000 combatentes estrangeiros, de 100 nacionalidades, aderiram a grupos extremistas tais como a Al-Qaeda e o EI, conforme se explica num relatório das Nações Unidas enviado há pouco ao Conselho de Segurança. O número de jihadistas estrangeiros que afluíram em cerca de nove meses às grandes zonas de conflito aumentou 71 por cento, de modo que o problema é hoje em dia muito mais grave do que o seria em Abril ou Maio do ano passado. Universidades do terror A Síria e o Iraque são, claro, os maiores destinos dos jovens fanáticos, tendo-se transformado nas escolas superiores do terror que durante os próximos meses e anos nos irá atormentar. Mas depois, se por acaso for possível o EI ser derrotado naqueles dois países, os jihadistas que de lá saírem poderão espalhar-se por todo o mundo, desde a África Oriental ao Magrebe. Há já largas centenas de combatentes extremistas na Líbia, no Iémen, no Paquistão e na Somália, oriundos de países tais como a Tunísia, Marrocos, a França, a Rússia e a Finlândia. O Conselho de Segurança das Nações Unidas tinha pedido o ano passado a alguns peritos que investigassem a ameaça que é constituída pelos combatentes estrangeiros que iam aderindo ao EI e aos demais grupos militantes, como a Ansar al-Charia, os Signatários pelo Sangue, os Soldados do Califado, o Boko Haram, o Ansar Bait al-Maqdis e o Al-Chabab. No fim de Março último ficou pronto o assustador relatório desses especialistas, segundo os quais o fluxo de combatentes estrangeiros às áreas onde prolifera o radicalismo islamita cresceu de alguns milhares há uma década para um nível nunca dantes alcançado. Ou seja, o derrube de ditadores como Saddam Hussein e Muammar Khadafi em nada contribuiu para melhorar o panorama geral nas terras compreendidas entre o Mediterrâneo e o Paquistão, tal como as ditas Primaveras Árabes, nas quais se depositou tanta esperança, em pouco melhoraram, até agora, o quotidiano de líbios, egípcios, sírios, iraquianos ou iemenitas. (Este artigo vai sair em Maio na revista comboniana Além-Mar)